Tu, verrinoso como és, começas logo por me recitar uma quadra de um poema popular “Apelo a Santo António” que a páginas tantas nos avisa que “isto chegou a tal ponto / e vão as coisas tão mal / que só varrendo esta gente / se salvará Portugal”. E ainda me falas de um panfleto que te chegou à caixa de correio de um ex, há que tempos é ex mas é como os peixes que depois de tirados da água ainda respiram, candidato à AR por Coimbra que com “consideração e amizade” diz que cá para a nossa santa terrinha ajudou a uma série de obras. Ele é USF, Escolas, Ruas, ETAR, Metro e mais umas tantas realizações. Até parece que o “autarca furão” desta casa velha nada fez durante o seu mandato e que quando ia à capital reivindicar obras só se ficava pelo Beato a pedir ao santinho milagreiro para fazer um esforço e fazer uma limpeza geral. Até parece que só nós os dois é que sabemos que “presunção e água benta, cada um toma a que quer” como dizia o nosso avô, mas a Fernando Carvalho nós sabemos o que lhe custou ter a vila onde está e como está, e como afirmava o Santo “todos eles são matreiros / e vivem à base de golpes”. O povo não é parvo, mas isto está mal e não se vê melhoras para tal estado de coisas.
Estamos, e eu particularmente estou, bué de contentes porque lemos, ouvimos e cremos numa estação de televisão que fala português, a Televisão Pública de Angola, TPA, que o comboio, no próximo mês, vai chegar ao Huambo. Huambo que me viu nascer para a vida e para o mundo, que me fez o que sou hoje e que recordo, com muitas saudades, esse comboio que também era parte da minha vida. O Caminho de Ferro de Benguela, onde trabalhou o meu pai e que hoje também está feliz, fez parte da minha existência durante anos. Foi nele que percorri Angola do Lobito ao Luau, onde a utopia da minha geração se iniciou em parte, os sonhos de uma adolescência corriam nos rios largos da esperança, as savanas do destino se cruzavam com as montanhas do belo. Uma paleta de cores que só quem viveu e sentiu sabe dar valor ao comboio que servindo interesses económicos de uma potência colonial, também serviu de ponto de união entre os angolanos, apesar das diferenças que existiam e se existiam muitas. Durante esses anos nunca ouvi falar em Metro e também nunca foi preciso.
Num abraço solidário, madrugada dentro, vamos lá saindo por esses campos fora e cantando diremos a toda a gente “Santo António, meu amigo, / rogo-te para ter inspiração / Sabes o que escrevo e o que digo / tenho as palavras no coração”.